A função social do boquete

20 Maio

Texto originalmente postado no Interney.net

por Alex Castro

Cresci em uma escola americana. Sempre somente com amigas mulheres. Brasileiras, americanas e de todos os países do mundo. Conversando com ela sobre sexo e afins.

E, dentre as muitas e vastas diferenças culturais, uma sempre me chamava atenção: o boquete. Havia uma diferença enorme, constitutiva, fundamental entre o modo como americanas e brasileiras definiam, entendiam, praticavam, usavam o boquete.

Para as americanas*, o boquete era o gran finale ideal de qualquer boa ficada. A progressão normal da ficada era o boquete. Pagavam boquete com enorme facilidade, adoravam, lambiam os beiços – e depois batiam no peito pra se dizer virgens, que estavam se guardando pro homem dos seus sonhos.

Para as brasileiras*, o boquete era sexo. Era algo que só se fazia com o homem com quem já se estava transando, depois de estarem mais íntimos e confortáveis com seus corpos. Poderiam até transar com alguém que mal conhecessem (lavou, tá novo) mas não colocariam na boca um pau cuja procedência desconhecessem. E achavam graça das americanas que já tinham chupado metade dos paus da cidade e tinham a cara-de-pau de se dizer virgens!

Para as americanas, a função social do boquete era justamente poder transar e experimentar, exercitar o sexo e conhecer o corpo, de maneira mais leve, sem precisar dialogar com o tabu da virgindade, sem precisar confrontar valores arraigados, mantendo intacta (tanto na cabeça dela quanto para seu futuro parceiro) a aura mágica da virgindade preservada.

Para as brasileiras, a função social do boquete era justamente sedimentar e confirmar uma relação de confianca e intimidade que já tinham com seu parceiro sexual fixo – tornando-se assim um rito de passagem importante dentro dos relacionamentos.

Alguns anos depois dessas conversas, em 1999, Bill Clinton afirmou categoricamente, em juízo, sob juramento, não ter tido relações sexuais com Monica Lewinsky. Quando se soube, mais tarde, que ela havia de fato chupado o primeiro pau, a questão tornou-se uma das mais importantes da história da Republica:

Afinal, se boquete é sexo, o Presidente mentiu e deveria sofrer impeachment.

Mas… boquete é sexo?

Nos EUA, eu diria que não – e, segundo essa pesquisa, por causa da influência da lendária cara-de-pau de Clinton, o número de pessoas definindo “sexo oral” como sexo caiu pra mais da metade. Esse outro artigo inclusive explica as raízes históricas do fato de boquete não ser considerado sexo pela geração de Bill Clinton.

A verdade verdadeira é que tentar definir sexo é uma grande besteira.

Se eu lambi entre seus dedos dos pés enquanto ela se masturbava, mas nunca nos beijamos, isso é uma ficada? Se eu chupei sua buceta, beijei seus pés e lambi seus mamilos, mas não a penetrei, isso é sexo? Um boquete, pura e simples, é uma ficada, uma transada, ou nenhuma das opções acima? Passar a noite inteira dedando ela por debaixo da mesa constitui uma ficada?

Não vale a pena.

*Aviso Importante

O texto já acabou. Esse aqui é apenas um disclaimer tristemente necessário.

Minhas observações se referem ao diminuto grupo de meninas branquinhas e ricas de classe média alta da zona sul do Rio de Janeiro, circa 1990, e ao também diminuto grupo de americanas classe alta, de todos os estados e regiões, e que viviam no exterior por serem filhas de diplomatas, executivos, militares. Se essas observações são extrapoláveis aos outros brasileiros e americanos? Não sei. A maneira como minhas amigas ricas brancas de Ipanema se relacionavam com boquete provavelmente é diferente das meninas negras pobres da favela do Cantagalo, logo ali ao lado. Eu, infelizmente, só tive uma infância e foi com o primeiro grupo. É dele que estou falando. Sobre as meninas do Cantagalo (e de Manaus, e de Delaware, etc), eu não falo, por puro desconhecimento.

A coisa mais chata de escrever esse tipo de texto é que sempre aparecem vários “malas da exceção”. O mala da exceção é quem faz um comentário dizendo assim:

“acho que suas amigas estavam te enganando! eu sou brasileira e sempre adorei pagar boquete em todo mundo!”

“isso aí tá furado, saí com uma americana e ela tinha mó nojinho de pagar boquete!”

Sei que não adianta pedir, mas lá vai: evite ser o mala da exceção.

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